Cristãos cavam buracos na selva para se esconder da perseguição em Mianmar
23/04/2021 12:10 em Gospel

O pastor Chit* percebeu rapidamente que ele e sua pequena igreja não estavam mais seguros após o golpe militar de 01 de fevereiro em Mianmar. As novas autoridades passaram a invadir igrejas, escritórios, cafés e prédios residenciais em busca de opositores.

Dessa forma, o pastor e 18 famílias de sua igreja decidiram que a selva era um lugar mais seguro e todos se mudaram para se esconderem na selva. Eles cavaram o chão, fizeram um buraco e agora ficam lá a maior parte do tempo. Como o preço dos alimentos dobrou após o golpe, o pastor Chit e sua comunidade não podem comprar arroz, então procuram raízes e folhas na selva.

Em um relato feito ao portal Christian Today, Zara Sarvarian, integrante da Missão Portas Abertas, afirmou que uma das ameaças que enfrentam é serem recrutados à força pela junta militar para o exército. Um pastor de uma aldeia remota disse a uma fonte da entidade, identificado apenas como Lwin* por razões de segurança, que “na semana passada, o chefe da aldeia foi convidado a recrutar 30 homens para o exército”.

“Agora os cristãos, incluindo o pastor, estão escondidos na floresta”, acrescentou Lwin, que relatou um cenário de frustração, desespero e estresse, uma vez que não há sinal de uma resolução para a situação.

Com o desligamento da Internet no país, as comunicações com Mianmar são raras. No entanto, os parceiros da Portas Abertas puderam compartilhar a situação atual que muitos dos 4,4 milhões de cristãos de Mianmar estão enfrentando.

Min Naing*, um cristão da capital Yangon, contextualizou: “Todos os dias ouço o som de tiros e granadas perto da minha casa. A maioria das casas não acende as luzes depois das 20h e ninguém faz barulho. Ficamos em casa durante o dia também. Não podemos sair, exceto para fazer compras e levar o lixo para fora. Eu moro no meio de Yangon sem segurança”.

Perseguição sem fim

Os cristãos enfrentaram sérias perseguições em Mianmar ao longo dos anos, e muitos temem que possam ser alvos durante o conflito atual. Mesmo antes do golpe, o país estava envolvido no que é atualmente a guerra civil mais longa em todo o mundo.

Tudo começou imediatamente após o país se tornar independente da Grã-Bretanha em 1948. O governo central tentou impor seu controle sobre as regiões, às quais havia prometido autonomia limitada. As etnias armadas dessas regiões têm lutado pelo direito à autodeterminação.

A guerra civil afeta, entre outras, as comunidades predominantemente cristãs de Chin, Kachin e Karen. Os cristãos são vulneráveis à perseguição por grupos insurgentes e pelo exército. Os combates continuam e mais de 100 mil pessoas – a maioria cristãos – vivem em campos de deslocados internos.

A maioria deles está lá há anos, sem comida e sem cuidados médicos. A luta também continua no vizinho estado de Shan, que tem uma comunidade cristã populosa, embora seja minoria da população. Assim, o golpe de fevereiro apenas aumentou a tensão existente para os cristãos.

Alguns deles decidiram que precisavam se manifestar e se juntaram aos manifestantes nas ruas. Myra*, uma pastora do centro de Mianmar, fazia isso todos os dias com outros membros da comunidade quando os protestos começaram.

“Eu não conseguia ficar parada quando nosso povo estava lutando e protestando”, disse ela à Portas Abertas. “Decidi sair e protestar. Alguns outros pastores escolheram ficar na igreja e observar o jejum e a oração. Queremos o melhor para o nosso país”.

A pastora Myra teve que parar de protestar quando se tornou muito perigoso, já que militares ocuparam a área onde ela vive. Sua igreja não pode abrir, e ainda assim, ela se reúne com alguns de seus membros para orar e estudar a Bíblia.

O pastor Joshua* do centro de Mianmar também participou dos protestos iniciais em apoio à democracia. À medida que a situação econômica piorava, ele começou a distribuir pacotes de alimentos para cristãos e não cristãos.

Outro pastor, Zaw, doou 35 kg de arroz para os pobres na vizinhança de sua igreja. Ele também ajuda e incentiva outros pastores de áreas rurais remotas por meio de telefonemas.

Da capital à selva remota, os pastores de Mianmar tentam fornecer apoio prático e espiritual a todos aqueles que precisam de comida e palavras de encorajamento enquanto a igreja em Mianmar ora e espera por um futuro melhor.

Mianmar está em 18º lugar na Lista Mundial de Perseguição da Missão Portas Abertas, um ranking com os 50 países mais hostis aos cristãos.

COMENTÁRIOS
Roda Pé